Alberto Mussa Alberto Mussa

O índio no samba

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Em 2017, duas grandes escolas de samba optaram por apresentar enredos indígenas: Beija-Flor vem com “Iracema” e Imperatriz Leopoldinense, com “Xingu, o clamor que vem da floresta”. Não custa, assim, fazer um breve apanhado da história do índio no carnaval carioca.
Antes de ‘Lendas e mistérios da Amazônia” (Portela, 1970), só o extinto Império de Jacarepaguá desceu com um enredo indígena, stricto sensu, em 1956: ‘Indígenas do Brasil’. Nesse período, o índio só se fez presente através dos romances de José de Alencar e da célebre ópera de Carlos Gomes. Os mais antigos enredos indígenas, nesse sentido, apareceram em 1949, quando a escola Índios de Acaú trouxe ‘Romance de Ubirajara’ e a Vila isabel veio com ‘Iracema’. No ano seguinte, os Independentes do Leblon repetem ‘Iracema’. Em 1953, Império Serrano e Índios do Acaú escolhem o mesmo enredo: ‘O Guarani de Carlos Gomes’. E O Guarani volta em 1955 (Paz e Amor) e em 1960 (Império de Campo Grande). Ainda em 60, a saudosa Cartolinhas de Caxias traz mais uma vez “Iracema’. E em 1962 os Acadêmicos do Engenho de Dentro retomam ‘O Guarani’. Em  1963, a Beija-Flor faz essa opção, com ‘Peri e Ceci”, que ensejou um samba clássico, dos mais belos sambas de enredo indígena de todos os tempos. Ainda tivemos “O Guarani em 1964 (Unidos do Uraiti) e  1969 (Capricho do Centenário). E Iracema também volta em 1969, com a União de Vaz Lobo. 
Era quase uma guerra entre O Guarani e Iracema, em que o primeiro (talvez por causa da ópera) leva certa vantagem. Apenas dois enredos parecem ser exceções: “Bravura de Poti” (Engenho de Dentro, 1964, provavelmente sobre a guerra contra o domínio holandês); e “I-Juca-Pyrama”, da Vila Santa Teresa, no mesmo ano (baseado no poema de Gonçalves Dias).
A Portela inaugurou uma nova era, em 1970, com a introdução da voz direta, a voz do índio, ao trazer a mitologia nativa do Brasil. Depois da Portela, houve grandes enredos e grandes sambas de enredo de tema indígena: Cabuçu 1977 (sobre a guerra das Missões), São Carlos 1979 (mitologia karajá), Império da Tijuca 1981 (mitologia local, de origem tupi), Mocidade 1983, Tradição 1985 (talvez o primeiro a abordar a luta indígena pela demarcação de terras), Vila Isabel 1987, Beija-Flor 1998, Unidos da Tijuca 1999, Imperatriz 2002, Beija-Flor 2005 e muitos outros.
É excelente, é maravilhoso, assim, constatar que em 2017 duas grandes escolas, Imperatriz e Beija-Flor, trarão enredos indígenas. Beija-Flor volta ao índio literário; e Imperatriz tem também um argumento recorrente: a associação entre culturas ameríndias e ideais ecológicos.
Sobre Beija-Flor, sendo um enredo sobre um romance do século 19, não há muito o que dizer: o enredo segue o livro.
Mas sobre a Imperatriz há algo que deve ser considerado: a visão uniformizante e ultrapassada (hoje injustificável) sobre os índios brasileiros.
Há no Brasil mais de 200 etnias indígenas; e pelo menos uns 20 macro-grupos culturais (classificados conforme a língua). No Xingu, particularmente (e o Xingu é o enredo da escola de Ramos), convivem etnias tupis, macro-jês, caribes, aruaques e outras. A diversidade mítica e cultural é enorme. Mas os carnavalescos e os criadores de enredos ainda insistem (pasmem, em 2016!) em dizer que Tupã, por exemplo, é para TODOS os índios equivalente ao Deus cristão!!!! E que Anhanga é o nome ameríndio do Diabo!!!!
Está mais do que na hora de se subir mais um degrau: de fazer um “upgrade” nos enredos.
As escolas de samba têm imensa responsabilidade na transmissão do conhecimento. Cumprem esse papel há quase um século. Têm melhorado muito. Por isso, porque têm melhorado, temos que exigir que melhorem mais. Tupã é uma entidade tupi; não é dos jês, por exemplo; nem dos aruaques. Cada etnia tem a sua cultura, seu inventário de entidades divinas ou sobrenaturais. Falar, por exemplo, em “país de Tupã”, é erro gravíssimo.
Mais ainda: Tupã não é equivalente ao Deus cristão: tal associação foi criada artificialmente pelo padre Manuel da Nóbrega, em 1549, porque os tupis da costa não reconheciam a noção de um deus único, criador do mundo.
O texto já está muito longo. Mas a mensagem, resumidamente, é essa: temos que tratar o brasileiro, o índio, como ele é, superando estereótipos antigos. Missão para os carnavalescos, e autores de enredos.

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